Crônica de Cândida Magalhães – Porque não te aprecio, cidade

Cidade, você roubou o encanto do amanhecer, com o barulho estrondoso dos carros que levam as pessoas sonolentas de milhas de distância para trabalhar, amontoadas em cadeiras, corredores dos ônibus, sem conseguirem se comunicar. A comunicação com o motorista é a sirene que diz o ponto onde vai despejar um monte de gente. Ao entardecer, você levou todos à correria para chegar na fila e pegar um lugar sentado ou na frente, para ser mais fácil a descida. Todos correm e se aboletam no meio da rua e nem se olham. Não permite nem sequer um cumprimento, boa noite, um contemplar de estrelas, da lua cheia, do céu estrelado. Ninguém repara quando está bonito para chover.

Até o efeito da chuva aqui no seu solo, cidade, é diferente da chegada dela lá no sertão. Aqui é um sufoco: esgotos entupidos, ruas alagadas, carros enfileirados sem saírem do canto, buzinas ensurdecedoras, xingamentos, gente se sujando de lama, correria, raiva, afobação, casa desabando, pessoas desabrigadas ou morrendo. Lá no sertão, a chuva é tão esperada, dá tantas alegrias, a terra cheira, as pessoas riem, comemoram e vivem a contemplar o céu, examinando a chuva e profetizando mais chuvas.

Ao atravessar as avenidas, entre fumaça e apitos, você exige que todos conheçam a cor do sinal que permite andar e diz que pare o verde, já não diz mato, juazeiro e oiticica. O amarelo já não é o canário nem a lavoura de algodão quando está florada. O vermelho já não é o cordão encarnado dos pastoris, nas quermesses das festas do padroeiro. No seu espaço não se ouve o canto do grilo e do sapo, da cigarra, dos passarinhos, rolinhas. Cidade Grande, você fez com que as pessoas já fiquem a se balançar com cadeiras nas calçadas, nas tardes mornas, a contarem estórias, entoar modinhas. Você acabou com as serenatas dos apaixonados, o passeio de mãos dadas na praça. O contato de crianças, jovens, homens e mulheres ficou frágil demais. Cidade grande, você até faz a gente se assustar como o ronco de carros, motos, ou apitos das sirenes de viaturas e ambulâncias, anunciando perigo de vida, violência.

Oh! Cidade Grande, por que a vida tem de ser isso? Esse corre-corre, esse vuco-vuco. As ruas já não pertencem às crianças, jovens, moças, mulheres e homens. Só existe espaço para as bestas feras de aço – os automóveis. Você deixou ariada uma beradeira, arigó, pobre coitada, que andava no lombo de um jumento lerdo. De repente, tem que ser ágil, rápido quando fala e anda. Até tem que forçar equilíbrio nas conduções em alta velocidade, apesar dos solavancos, paradas e arrancadas que quase lhe torcem ou arrancam a munheca. Parece até burro desembestado atrás de vacas na espinha da serra, domadas por um valente vaqueiro vestido no seu gibão.

Cidade Grande, você me aperreia, azucrina as ideias. Não posso ter meu próprio ritmo, tenho que andar depressa, decidir, pensar e falar rápido para não mangarem de mim. Não posso tirar uma madorna sossegada, há sempre o aperreio do horário e do olho no relógio. Você deixa todo mundo avexado, ninguém conversa ninguém se olha ao passar um pelo outro. Parece boiada, caminhando, fugindo da seca para um pasto mais verde.

Oh, Cidade Grande, me desculpe se não te aprecio por não permitir que converse com meu vizinho, conheça além do número do seu apartamento. Não lhe visito nem lhe tomo emprestado uma xícara de açúcar ou farinha, quando na minha casa falta. Não me deixa livre para levar ao meu vizinho um pedaço de bolo de milho que fiz, porque ele tem medo, fica desconfiado. Não posso bater na sua porta, sem que antes, não me estude pelo olho mágico e decida se abre ou não para saber o que desejo. Não posso dizer que estou sozinha, tenho medo. Não me sinto à vontade para pedir a alguém para vir dormir comigo e nem vou dormir em outra casa com receio de incomodar.

Cidade Grande, são essas coisas que me deixam desencantada e sem vontade de lhe amar. Mas, no meio de tudo isso, tem umas pessoas que te habitam há anos, vindas de lugares semelhantes ao de onde vim e que são luzinhas na minha recém-chegada, ainda com poeiras do sertão e doidinha de saudades. Uma Nazaré, que me traz bolo de milho, Lili, que me deseja bom sono e, com Toninho, pelo telefone cantam cantigas de ninar; tem uma Gigi, que me adotou e se preocupa com minha alimentação; tem Lucinha e Manoel, que me chamam “minha filha”; tem meu pai (Vicente), que me liga interurbano e diz que está chovendo no sertão e que seu coração está alegre por me ouvir e que, por essa razão, vai tomar uma bicada de cana para almoçar e deitar na rede no alpendre até chegar a hora de voltar para o roçado de novo; Anacleto, que deixou de morar com a mãe e está no Alcoólicos Anônimos; Nina, que encoraja a escrever; Valdelice, que faz promessas e sacrifícios para filhos e filhas arranjarem bom trabalho para se sustentarem; Alfredinho, que lá de Crateús dá notícia de greve de fome em solidariedade aos famintos produzidos pela seca no Nordeste. Existem os que participam do Natal dos Desgarrados e Forró Forrado. Rubinho, Lenira, Paulinho, Toninha, Ana, Gisa, Sônia, Fernando, Iolete, Rosa, Esther, Zé, Celinha, Duarte, Normando e tanto outros que me dão carinho.

Desculpe, Cidade Grande, apesar do barulho dos carros e das buzinas, tem o silêncio da madrugada, para escrever enquanto uns dormem, outras já acordaram para preparar comida para os filhos e fazer sua marmita para pegar o trem e começar outra jornada de trabalho. Observei, Cidade Grande, que as pessoas que te habitam e trabalham, moradores das periferias, dormem pouco porque as distâncias são grandes. Muitas comem em pé porque os espaços são cheios e o tempo e dinheiro são curtos. Não há aquele quadro de todos à mesa se alimentarem, conversarem e fazer a sesta. Os operários da construção moram entre os tijolos, cimento, cal, carro de mão e pá. Comem marmitas que são requentadas, cujo fogão é lata de sardinha com álcool, que são causas de muitas explosões e acidentes do trabalho.

Sou exigente com você, Cidade Grande, mas não esqueço que você, com toda essa loucura, me deu espaço, amigos e amigas, com quem palestrar.

Oh, Cidade Grande, você permitiu que eu a amasse, me amarrasse, me lançasse, me envolvesse em seus braços e encantos. Quando eu voltar, você vai me fazer chorar por levar contigo tantos olhos, rostos, nomes que amo e que me ajudaram, amenizaram o sofrer, os dias em que te habitei.

Cidade Grande, eu vou te levar, vou te deixar, vou te carregar com os rostos, olhos, nomes que vou transportar. Cidade Grande, que você fez comigo? Me deixou amor dividido, até parece que quer enterrar meu umbigo. Cidade Grande, eu vou te lembrar por todas essas pessoas que vou continuar a amar.

 

Rio, 25 de março de 1981 (3 horas da manhã – quarta-feira)

Candida Moreira Magalhães aposentada e ativista feministaÉ formada em Serviço Social pela Universidade Federal do Ceará e em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem uma vasta experiência na Previdência Social. Foi professora na Universidade Estadual da Paraíba, dedicando-se aos ensino de Políticas Públicas, Orientação Pedagógica e Estágio. Trabalhou na Fundação Margarida Maria Alves, na Cunhã Coletivo Feminista e Secretaria de Estado da Mulher e Diversidade Humana, Paraíbacomo educadora e advogada.

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