arte Cyane Pacheco

O vestido que não cabia

Ela se vestia sempre com calças compridas ou macacão e usava uma jaqueta jeans. Odiava se vestir de menina, passar ruge nas bochechas e se sentar de pernas fechadas. De cabelos curtinhos e com aquele jeito diferente de se comportar de boa moça, Marciana era seu nome.

Na escola era conhecida entre os colegas por Joãozinho, menina-macho. As adjetivações pejorativas não faltavam aos seus ouvidos. Só se sabia que Marciana era uma menina quando, nas aulas de educação física, seus seios despontavam na camiseta branca de algodão, uniforme da escola. Os seios eram a prova irrefutável que ela podia transitar no meio das meninas e usar os mesmos banheiros. Era uma incógnita! Afinal, quem era aquela menina esquisita que gostava de jogar futebol e brincar de bolinhas de gude? Rejeitava brincadeiras de bonecas e aquele “jogo pegajoso no poço”, que fazia meninos e meninas se beijarem de língua de forma peguenta, no intervalo das aulas.

Causava fascinação e rejeição ao mesmo tempo entre as colegas. A fascinação vinha pela sua altivez. Era segura de si? Autêntica? Era o que fingia ser? Não baixava a cabeça pra nada. Quando os “meninos-machos” faziam alguma piada sobre seu modo diferente de ser ou mexiam com suas melhores amigas, Sandra e Sônia, Marciana partia pra cima. Gostava de tirar satisfação e não levava desaforo para casa.

Certo dia, atacou-se com Pedrão, um adolescente, dois anos mais velho do que ela.  Chamava-lhe de macaca e de menina-sapato. Espalhara boatos que Marciana tinha “cobras” entre as pernas, alertando as meninas para que tomassem cuidados com a menina-macho. Por onde passava, escutava os cochichos e risadas dos guetos. E o tal do Pedrão atrevido gritara bem alto e em bom tom: “Macaca, quer uma banana?”. Marciana não contou história, virou para trás e não deu outra: socos, pernadas, chutes, mordidas. Ela batia logo nas partes íntimas, de baixo, sem dó nem piedade. O garoto valentão gritava de dor, enquanto ela segurava as lágrimas dos golpes que também levava. Todos olhavam a briga de camarote.

O espetáculo acabara na sala da diretora, que não entendia como Marciana podia se comportar daquele jeito, medir força física com os meninos.

— Onde já se viu uma menina se comportar como macho? — repreendia a tal diretora, que a suspendeu por uma semana.

Marciana era sua própria advogada, tentava argumentar que não podia se calar diante dos insultos que ouvia. Desde menina, aprendera que não podia levar desaforo para casa. Tinha que se defender sozinha, engolir o choro, ser forte e jamais demonstrar fraqueza para os outros, dizia sempre a mãe Bernardina. Em casa tinha que se defender dos seus seis irmãos-machos quando a mãe não estava por perto.

Bernardina era uma mulher forte. Viúva de marido vivo, criou seus sete filhos sozinha, e, como não bastasse, tivera filhos gêmeos meninos. Marciana era sua única filha e a quarta criança nascida. O marido tinha abandonado a família quando os gêmeos ainda estavam na barriga da mãe. Corria o boato que o homem tinha se mandado para as bandas do Norte à procura de ouro. Queria ser rico! Dona Bernardina lavava roupa para fora, três dias na semana, o dinheiro que ganhava dava apenas para matar a fome dos filhos. Os outros três meninos pequenos ficavam em casa, aos cuidados de Marciana, enquanto sua mãe trabalhava.

Os filhos mais velhos davam duro no plantio de cana-de-açúcar, em uma das usinas da redondeza. Saíam de madrugada, no caminhão da usina, e regressavam ao pôr do sol. As mãos feridas eram as marcas do árduo trabalho. Os rostos negros ficavam ainda mais retintos pelo sol que transpassava as roupas do corpo.

Dona Bernardina sabia que, como trabalhadores de cana-de-açúcar, os meninos não chegariam a uma universidade, que gente preta se diplomar ali não era fácil. O diploma era viver! Matutava dia e noite sobre como arrumar mais dinheiro para pagar os estudos dos filhos. O dinheiro  só dava para a sobrevivência. Às vezes, pegava um trocadinho para jogar na loteria. Quem sabe a sorte não viria um dia? Ela tinha fé, mas… que nada, o jeito era recorrer a outras formas de ganhar dinheiro.

Decidiu que iria comprar uma máquina de costura usada. Não custara muito. Sabia costurar roupas de toda espécie. Sabia que podia vender em algum lugar do bairro, depois no centro da cidade ou quem sabe nas butiques de madames… Assim esperava. Sonhava acordada e sonhava dormindo…

Ensinou logo a Marciana e aos meninos mais novos que ficavam em casa o ofício da costura. Todos tinham que ajudar nas horas que não tivessem na escola. Bernardina reformava as roupas velhas da vizinhança, customizava, bordava, criatividade não lhe faltava. A costureira foi ganhando fama no bairro, estava sempre com muitos pedidos. Marciana desde menina sempre foi criativa, gostava de desenhar no seu caderno, roupas, vestidos, blusas… tudo tinha cor e estilo.

Um dia mostrou para mãe seu caderno e deixou Bernardina de boca aberta. Ficou espantada com os desenhos da filha. Dali em diante, Bernardina comprou alguns tecidos novos. Marciana primeiro desenhava os modelos em uma folha de papel, com todos os detalhes possíveis, com um estilo único, original. Bernardina fazia os moldes dos desenhos da filha. Dava para notar o entusiasmo de Marciana em seus olhos grandes que se arregalavam como um sol a brilhar.

Quando a menina viu pronto o primeiro vestido que tinha desenhado para a mãe costurar, as lágrimas escorreram pelo seu rosto. Vestiu a peça, desfilou para lá e para cá na pequena da sala. A mãe sorria, olhava para o vestido e olhava para a filha, como se fosse uma modelo de passarela.

A meninas se viu através de um pedaço velho de espelho. Marciana, por alguns minutos, sentiu-se extasiada, ao mesmo tempo incomodada. Sentia que seu corpo não se adequava àquele vestido. Havia algo estranho, não se sentia totalmente feliz. A mãe percebeu, o desconforto da filha. Pensou: o que estaria errado com a filha?. O coração apertou, mas ficou calada.

Marciana arrancou a roupa, seu corpo coçava todo. Foi para o quartinho onde dormia e, de lá não saiu. Bernardina ficou encafifada com aquele estranho jeito da filha. Suspirava, andava de um lado para outro da salinha de costura para a porta do quartinho onde a filha estava. Veio a noite, amanheceu o dia e nada da menina sair de seu refúgio. Não teve jeito, a mãe tinha que romper com aquele silêncio amargurado. Estava preocupada, angustiada. Coragem, Bernardina, dizia pra si mesma. Chamou por suas Yabás, tomou um copo de água gelada da moringa de barro e… bateu, bateu várias vezes na porta do quartinho e do lado de fora, disse:

— Filha, vamos dar uma volta perto do rio… Lá podemos tomar um banho nas águas de Oxum. Vamos, o dia esta lindo hoje! — Marciana e Bernardina caminharam emudecidas, uma do lado da outra, os olhares se cruzavam, mas nenhuma palavra dita, até chegarem ao encontro com as águas. Por fim, a mãe falou: — Não importa se você não quer usar vestidos, você é minha filha. Seja o que você quiser ser, ainda que o mundo lá fora não te acolha.

Ambas se despiram de suas vestes e jogaram-se naquelas águas doces. 

As duas artes são regalos da artista plásticas Cyane Pacheco. Gratidão! Quem quiser conhecer mais sobre sua artes visite seu Instagram.

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