gotas de felicidade

Gotas de felicidade

Era o meu primeiro inverno, em Liechtenstein. Os flocos de neve caiam sem cessar, tudo estava branco: as árvores, o chão, os telhados das casas… Enquanto eu esperava, na estação de trem, que me levara para o outro lado da fronteira da cidade onde vivo, me encolhia toda debaixo dos casacos grossos de inverno (Wintermantel). O frio doía nos ossos. O frio, refletido no silêncio das pessoas. Ao descer do trem, quando caminhava pela calçada coberta de neve, rumo à escola de alemão, senti que alguém me seguia silenciosamente.

Uma voz tímida me chamava “Hallo, bist du Brasilianerin?”. Naquele momento, virei-me para trás e vi que era uma mulher elegante, vestida aos moldes do inverno: Um casaco preto, tocas de lã e botas revestidas de lã de ovelha. Respondi timidamente: “Ja, ich bin Brasilianerin”. Havia um sotaque naquela voz que eu reconhecera e que fizera minhas bochechas geladas avermelharam-se de alegria. Disse ela, em português: “Me chamo Vitória, sou de Minas Gerais”. Caminhamos juntas, trocamos algumas poucas palavras até os lugares de nossos destinos. Nos despedimos, mas esquecemos de trocar os números de telefone. Eu a vi desaparecer como se fosse um vulto, naquele dia gelado e cinza.

Passaram-se os meses gelados e, durante este tempo, não tinha mais visto Vitória. Pensei: “será que ela voltou para o Brasil? Está doente?”. Intrigada, comecei a investigar por onde andava Vitória. Lembrei que ela tinha mencionado que trabalhava nos serviços de limpeza, em uma escola pública da capital.

Era primavera, em pleno fim de abril. Entrei em uma padaria (Bäckerei) para provar de algumas guloseimas e tomar café colombiano e, como de costume, ler algumas páginas do romance A amiga genial, de Elena Ferrante. Para minha surpresa, Vitória entrou e, discretamente, dirigi-me até ela e a convidei para se sentar um pouco comigo. Ali permanecemos cerca de uma hora e,  entre um café e outro, Vitória começou a narrativa de sua vida, dizendo que  sofria desde sua infância, de uma grave doença. Espantada fiquei, mas não queria ser tão direta e perguntar-lhe qual era a doença que a fazia sofrer tanto. Silenciei-me!

Na infância tinha sido vendida, por sua mãe, a uma família de estrangeiros vindos da banda da América do Norte, que morava na Tijuca, Rio de Janeiro. A mãe tinha oito filhos e não tinha como matar a fome de suas crianças. A pobreza morava dentro da casa. Morava em um barraco de tábua no morro da Coroa. Trabalhava como diarista todos os dias em diferentes mansões da cidade maravilhosa. Com ajuda dos irmãos da igreja que frequentava, os filhos não morreram de desnutrição, o feijão e o arroz chegavam de vez em quando. O pai abandonara a esposa logo após o nascimento de Vitória.

Vitória crescera com esta família rica que dela fizera de empregada doméstica da família, quando não estava na escola para ser letrada. Diziam que ela tinha que pagar a comida, a roupa, os remédios que usava. A escola era o único lugar em que podia viver um pouco de sua infância roubada. Nos intervalos, se juntava a outras crianças e brincava da “moça pobre que queria ser rica”, relatava ela, com sua voz entrecortada

Com o passar dos anos, Vitória aprendera bem todo o ofício da casa: lavar, passar, cozinhar as comidas diferentes dos estrangeiros, mas ninguém lhe ensinou o que era afeto. Não tinha ninguém para falar sobre o sangue que corria entre suas pernas, aos 11 anos de idade; dos desejos e medos que sentia no seu corpo-metamorfoseando e tampouco alguém para lhe ajudar com as tarefas da escola. As lágrimas caiam na xicara do café, gota a gota. Um suspiro profundo emudecera suas palavras. Ela olhou para o relógio e disse: “Tenho que ir trabalhar, qualquer dia a gente se encontra, toma aqui o meu número de celular”. E a vi partir silenciosamente.

Passaram-se algumas semanas. Liguei para Vitória, insistentemente uma, duas, três vezes… Nenhum sinal dela. Resolvi procurá-la no seu local de trabalho. Uma colega italiana que ali trabalhava me disse que ela estava de licença médica, em casa, pois tinha caído da escada e torcido um pé e retornaria no início do verão, em junho. A italiana me perguntou o que eu queria com Vitória, e disse-lhe: “sou uma amiga”. Comentou ela, sem que eu perguntasse alguma coisa:. “Vitória é adorada por todos aqui porque limpa e limpa tudo bem direitinho, sem perder o bom humor. Gosta de contar piadas, adora cuidar das plantas das salas de aula. Ela é uma mulher intrigante, pois só anda no salto, cabelos penteados, roupas floridas, e vem para o trabalho dirigindo um Porsche vermelho”.

Na espreita do verão, ansiosa para reencontrar Vitória, persisti na chamada telefônica, na esperança de que ela me respondesse. Sim, ela me respondeu e me convidou para fazer uma caminhada no bosque perto de sua casa, no final de semana seguinte, porque lá poderíamos conversar sem que as paredes nos ouvissem.

Com minha bicicleta, pedalei até sua casa. Saímos juntas pelo bosque. Era por volta das 10 horas da manhã. Fazia um dia lindo,  30 graus, os pássaros cantavam, as folhas se moviam com o vento suave, os adultos passeavam por ali com seus cachorros bem tratados e, de vez em quando, um ciclista ou outro passava veloz por nós.

E, aos poucos, as palavras saíam de Vitória. Dizia que estava feliz com a chegada do verão, que gostava de tomar sorvete, usar roupas leves e viajar com seu marido Albert para alguma praia na Ásia, porque lá era tudo mais barato. Tinha economizado dinheiro para as férias, porque Albert, o segundo marido, gastava quase todo dinheiro jogando no Cassino ou comprando vinhos, whiskies, grapas de alta qualidade. Desconfiava que o marido tinha uma amante, por aquelas bandas. Por sorte não tinham filhos! Até quis ter com o homem do seu primeiro casamento. Suspirou! Calou-se por alguns instantes! Pouco a pouco, as palavras foram sendo pronunciadas. Queria falar e eu estava ali para ouvi-la. Cuidadosamente, perguntei por que ela tinha deixado o Brasil.

Trabalhara no teatro municipal do Rio de Janeiro, ajudando organizar as roupas/figurinos dos artistas nos armários. De vez em quando, assistia uma peça, pelo buraco da grande cortina. Chorava junto com as cenas tristes representadas no palco por Fernanda Montenegro. Tinha 17 anos quando conheceu Martin, com seus 35 anos idade. Ele trabalhara no teatro, cuidando da iluminação do palco. Foi amor à primeira vista, ele se encantara com sua pele negra e elegante e ela se apaixonara por aquele homem branco, alto, de fala enrolada, mansa e gentil. Não demorou muito para que suas vidas se entrelaçassem, sentia que a felicidade estava a caminho. Enquanto Vitória narrava sua história, fomos interrompidas por um estrondoso canto de um grande pássaro. Vitória emudeceu-se! Via uma tristeza profunda naqueles olhos grandes, um olhar perdido no horizonte, à procura do pássaro que sobrevoava o céu azul do bosque.

Vitória casou-se com Martin, que prometera dar-lhe uma vida de princesa e amá-la para sempre. Decidida viver a vida ao lado do seu homem, mudou-se para sua terra natal, o principado de Liechtenstein. Da língua alemã, nada sabia! Frequentou o curso básico de línguas estrangeiras oferecidos aos imigrantes. Aos poucos, aprendeu a falar o alemão-dialeto do marido. Tudo parecia perfeito, estava feliz! O homem saía para trabalhar no Restaurante da família e regressava no tardar da noite. Vitória permanecia em casa, preparava o jantar, perfumava-se e  vestia seu vestido vermelho transparente, tudo para agradar o amor de sua vida. Ela aplicada com as tarefas da escola e tinha que dominar bem a língua, se quisesse arrumar um emprego na cidade.

Vivia sua rotina, da escola para casa. O marido dava-lhe dinheiro contado para as compras da semana, despesas com remédios e para o transporte para o curso de alemão. Dependia totalmente do marido. Achava injusto reclamar ou se sentir insatisfeita, pensava sempre.  Apesar de morar em uma casa boa e bonita, sentia-se totalmente sozinha naquela terra estranha. Não podia desfrutar da companhia do marido. Ter amigos naquele lugar era como se ganhasse na loteria. Vizinhos viviam de portas fechadas. O único lugar onde conseguia ter contato com gente era nas aulas de alemão.

Nos finais de semana, novamente, o marido chegava tarde em casa. Ela queria ajudar no restaurante, mas ele dizia que não. Dizia que ela não sabia se expressar bem em alemão, melhor que ela permanecesse em casa. Dia após dia, Vitória foi murchando, emagreceu, perdeu a vontade pelas tarefas da casa. Sentia-se sufocada, sem chão, deslocada. Mas para onde ir? O que fazer da sua vida? Estava atormentada pelos pensamentos. Não queria que ninguém, no Brasil, soubesse de seus lamentos. Todos lá achavam que ela estava bem casada e feliz. Aliás, já haviam se passado cinco anos. Silenciou-se!

Certo dia, disse ao marido queria trabalhar, ganhar seu próprio dinheiro para comprar suas coisas e, além do mais, sentia falta de ter contatos com outras pessoas, fora do espaço da casa. Martin não interpretou bem suas palavras. Pensou que sua mulher queria se amostrar para outros homens. Passou, desde então, a controlar o dinheiro que dera para as compras do supermercado; os horários de sua chegada em casa; sempre telefonava do trabalho para confirmar se ela permanecia em casa; escolhia as roupas que deveria usar, especulava até o que ela estava lendo e escutava suas conversas com as pessoas do Brasil. E ainda  escondera seu passaporte.

O castelo de Vitória foi se desmoronando. Um dia atrás do outro, ela ia se definhando, não queria comer, perdera o gosto pela vida. Certa vez, Vitória estava na aula de alemão e o tema era sobre “Freundschaft” (amizade) e, após a aula, a professora percebeu que Vitória estava demasiadamente triste. Aproximou-se dela e, ao lhe perguntar o que a estava perturbando, ainda com o alemão atrapalhado, Vitória desabafou sobre o que estava acontecendo com sua vida. A professora lhe disse que ela tinha que procurar ajuda e se ofereceu para acompanhá-la a um centro de apoio às mulheres imigrantes do país. O marido não precisava saber!

Juntas foram até este lugar e, com a ajuda de uma tradutora de português/alemão, Vitória relatou sua situação para uma assistente social, que a orientou como proceder em caso de separação. Mas ela tinha medo das ameaças do marido e também não tinha como se manter financeiramente, o dinheiro que tinha era só o que marido dava-lhe para as compras da semana. O que fazer? Vitória saiu dali decidida que queria se separar do marido e recomeçar sua vida sozinha.

À noite quando Martin chegou em casa, depois do jantar, encorajou-se e disse-lhe que queria a separação e lhe explicou todos os motivos. Ele deu uma enorme gargalhada e como um cão raivoso, ironicamente, disse-lhe: “como você vai viver sem mim? Você não tem dinheiro, nem casa, nem amigos, fala muito mal o alemão e, além do mais, seus documentos estão comigo. Nem viajar você poderá, você pertence a mim”.

Ao ouvir as palavras de humilhação, ela foi murchando e murchando… quase perdendo a respiração, mas lembrou-se  da promessa que a mulher da casa das imigrantes havia-lhe feito, de ajudá-la! Permaneceu em silêncio, mas confiante. Tinha que ser forte para enfrentar o poderio do marido. No outro dia, preparou sua mala e, antes do marido voltar para a residência, saiu de casa para nunca mais voltar. Com ajuda de advogados lutou junto à justiça durante um ano para adquirir seus direitos. Ameaças de morte, perseguições vinham pelo telefone. Na justiça, ela ganhara seus direitos. “Tudo que Vitória queria era viver, reconstruir sua vida”, pensei comigo!

Atenta a sua narrativa, não me dei conta do tempo. Já estava quase escurecendo no bosque, nos despedimos carinhosamente e cada uma seguiu o caminho de volta para casa. E eu com minha bicicleta!

Quando reencontrei Vitória pela última vez, era final do verão de 2015, antes de sua viagem de férias para Cuba. Ela veio até minha casa com um pudim que havia feito especialmente para mim. Falou-me sobre suas gotas de felicidade ao lado de Herbert, o segundo marido.  Ela o  conhecera anos depois de sua separação.  Ele era um homem afetuoso com ela, pelo menos era o que parecia ser, nas aparências! Herbert trabalhava em uma agência de carros finos e, por isto, estava sempre desfilando pela cidade com um carro de marca. Viveram juntos  durante 25 anos. Filhos, também não tiveram, apenas um cachorro e dois gatos. Nas horas vagas, Vitória saía com algumas amigas para um café ou restaurante. Adorava beber um bom vinho e escutar os sambas que baixava nos canais do YouTube. Sempre dizia que o dia mais feliz da sua vida será o dia de sua aposentadoria, faltavam apenas dois anos. Tinha planejado, neste ano, viajar para Cuba com o marido, e assim, o fez.

Um dia recebi um cartão postal de Vitória, dizendo que ela juntara, em seu pote,  mais algumas gotinhas de felicidade, naqueles dias que passara em Cuba. A vida por ali tinha ritmos. Gostava da gentileza e da vida simples do povo cubano, de tomar cuba-libre, comer os pescados frescos, de passear pelas ruas com aqueles carros antigos e andar pela a praia de Ancón… Eram tantas coisas para aproveitar… que tinha vontade de viver tudo de uma só vez, como se não houvesse tempo para o depois. Suas últimas palavras no cartão postal foram: “a felicidade não existe, mas apenas algumas gotas que juntamos ao longo da vida”.

Estávamos na transição do verão para o outono, quando recebi a triste notícia que Vitória, já não estava mais entre nós. À noite, tinha deitado ao lado de Herbert e, no por do sol cubano, seu coração havia parado. Nada mais podia-se fazer! A morte se antecipara e levara a vida de Vitória, antes que completasse os seus 63 anos de idade.

Sempre me lembro de Vitória quando escuto um de seus sambas prediletos “Tristeza não tem fim, felicidade sim”.

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