Candida Magalhães – o sertão que habita em mim

No mês de julho, tivemos o prazer de entrevistar  a escritora cearense e feminista, Candida Magalhães.  Neste episódio do Podcast, Candida nos conta um pouco sobre suas andanças, experiências e de sua relação com a tessitura da escrita. Entre uma conversa e outra, ela nos presenteia com a leitura de algumas poesias. Gratidão Candida, por esta conversa prazerosa!

Candida, nasceu em 7 de abril de 1946, no sítio Tipi, município de Aurora, Ceará, e é filha dos sertanejos Valdelice Moreira – Babau, como chamava carinhosamente sua mãe – e de Vicente Américo Magalhães, que, às vezes, queria fugir da casa de Candida para voltar ao sítio Sossego, em Crateús, onde passou seus últimos anos de vivência na roça. Ele viveu na convivência da filha desde os 86 até os 99 anos e 8 meses. Com amorosidade, Candida cuidou de seus velhos pais até a chegada partida deles.

Candida passou por diversos lugares, do sertão de Crateús (São Paulo, Brasília, Fortaleza, Rio de Janeiro) ao litoral de João Pessoa, onde atualmente reside, há mais de 30 anos, na convivência da filha Giuliane, do genro Vinícius e da netinha Luísa, o encanto de seus olhos.

Como uma peregrina, ela percorreu muitos caminhos em busca dos estudos e de trabalho, que lhe garantisse o sustento. Em Pesqueira, Pernambuco, com 20 anos, terminou o pedagógico. De 1968 até 1971 concluiu o curso de Serviço Social, na Universidade Federal do Ceará (UFC).

Candida sempre foi uma mulher de espírito livre e rebelde, lutou contra as injustiças sociais e pela democracia brasileira e, por isso, ela foi mais uma das inúmeras vítimas da violência acometida pela Ditadura Militar. Depois de 90 dias em cárcere, em Fortaleza, ela foi libertada, mas as marcas da violência permanecem em sua memória.

Na Universidade Estadual de Campina Grande, foi professora no Departamento de Serviço Social e, durante nove anos, trabalhou na Fundação Margarida Maria Alves como educadora-advogada no Projeto de Formação de Juristas Populares.

Sua atuação na defesa e promoção dos direitos humanos das mulheres é vasta: trabalhou na Secretaria da Mulher e da Diversidade Humana do Estado da Paraíba, particularmente, na Gerência de enfrentamento da violência às mulheres; integrou a equipe de educadoras da organização Cunhã Coletivo Feminista e exerceu sua militância política junto a Articulação de Mulheres Brasileira, na Paraíba. 

O contexto da pandemia de Covid-19, tem motivado Candida a colocar suas inquietudes no papel, transformando-as  em palavras tecidas em formas de crônicas, poesias, contos, diários e relatos de experiências de vida. Neste tempo, de inspiração criativa, ela tem revisitado seus textos guardados nas gavetas, dedicado mais tempo a produção de suas escritas e lançando-as ao mundo. Escrever é sempre um encontro com os nossos mistérios e torná-las públicas é um ato de revelar os mundos que estão dentro de nós, os mundos que nos cercam e aqueles que imaginamos ou queremos construir.  Nas palavras de Candida …

“Escrever é um tecer, um tear
Cada palavra é um fio que vai se tecendo…
Escrever é uma pintura, 
um desenho atrás das palavras”

De volta ao Sertão

Depois de uma viagem de cinco horas e meia de carro com destino a cidade de Sousa, na companhia da minha netinha Luísa, Giuliane minha filha e meu genro Vinicius, situada no sertão da Paraíba, dei a me lembrar da infância vivida no Sitio Bom Jardim, município de Cajazeiras cidade vizinha. Uma infância com gosto de bolo de milho verde, angu com galinha de capoeira, coalhada, queijo de coalho e de manteiga, mungunzá, tudo feito pela minha mãe Valdelice e eu a menina oitava filha do casal depois do nascimento de 7 homens, ajudante da mãe. Durante o dia ajudava nos serviços  de casa e a noite sentava na calçada para escutar  histórias de trancoso, de bruxas e seres com dons especiais de encantamento. Nos dias de lua cheia corria pelos caminhos de terra e sentia a lua me seguindo. Quando ficava pastorando a carne de sol que meu pai Vicente fazia ao escutar o barulho de um avião acenava com a mão e tinha a certeza que as pessoas que nele viajavam respondiam ao aceno e só voltava à realidade quando ouvia um grito de minha mãe falando para prestar atenção ao que estava fazendo.

Nesse momento a imaginação se expandia e pensava em conhecer a cidade. Acreditava que era um lugar de muito encanto e novidades. Fazia planos para um dia fugir e ir para um lugar desses. Quando me dava a pensar sozinha sem minha mãe, meu pai, meus irmãos, as vacas, os burros, os carneiros, jumentos, galinhas e porcos, aí voltava atrás e até chorava de saudades e desistia da viagem. O melhor lugar do mundo era onde vivia. O deslumbramento do espaço, aquela imensidão do céu voltava com intensidade.  Aquele silencio que me abraçava onde quer que estivesse e o terreiro onde acendia as fogueiras para sentar e desbulhar o feijão ou milho da colheita anual com certeza, isso não tinha na cidade.

Candida Familia
Casa do sítio Sossego, município de Crateús, Ceará – acervo pessoal de Candida Magalhães

Essas lembranças quase que me afastam do que ia falar sobre Sousa. Daqui de onde estou vejo um sitio e observo a vida dos seus moradores e a luta deles com a terra e os animais. A fala mansa e compassada, o caminhar firme e devagar o arrastado do pé na estrada de poeira, o vai pra lida de roceiro. É animal pra cuidar, levar para o pasto a Forrageira que prepara a comida dos animais para quando voltar à tardinha. São muitas misturas, capim, palma, milho e água no coxo.

Horário de retorno para o curral, as cinco horas da tarde e os aboios “ê boi manso, ê boi bonito< ê boi, rê, rê, ê, ê”.  Quatro horas da manhã levanta para a ordenha. O leite é colocado nos depósitos, em uma carroça puxada por um burro segue para cidade para as padarias e consumo de algumas famílias. Nesse espaço não se encontra as mulheres, o que é considerado trabalho para homens. São eles que tangem o gado do roçado para o curral e executam o trabalho de ordenha. No sertão do nordeste não se houve falar de mulheres em trabalho de vacaria e curral. Sabe-se de uma mulher, a única, por nome Elba, no sertão de Cajazeiras, que montava e derrubava boi nas vaquejadas.

Esse tirinete todo dia o dia todo, e ainda tem quem ache o nordestino preguiçoso. São os senhores do sul, de clima frio com boas chuvas, muita lavoura e pastos. Sertão de pouca chuva, de calor ardente, seco o sol esquenta que nem brasa. Não dá pra andar apressado, o ritmo é outro, devagar e manso como o passo da boiada que segue.

Nesse mês de agosto o vento quase corta feito faca amolada. O som é um vu vu vu vu incessante. Um barulho que não fere os ouvidos como carros e buzinas. Nesse momento estou a escutar o vento que me embala, me chama atenção, me desperta para a escuta de outros sons do meu sertão. A paisagem é uma obra de arte da natureza, mandacarus, palma, jurema, algaroba, juazeiro e arbustos que secam na falta d’água formando desenhos que parecem riscos cinzentos em contraste com um céu azul sem nenhuma nuvem.

A noite tem cheiro do curral, cantigas de grilo, coache de sapos, céu que dá pra contar as estrelas e o barulho dos chocalhos delan, delan, que soa nos ouvidos como canção de ninar. Tudo dá a certeza que outras gentes habitam o mundo com as pessoas e que essas outras vidas tem fala e cantigas próprias, que são diferentes das nossas, mas tem sua melodia e encantos. Nós é que somos incapazes ou estamos tão anestesiados pelo mundo tecnológico e alheios que não conseguimos acessar outras linguagens e cantos da natureza.

O vento as vezes vem com tanta intensidade que parece que teve raiva e faz um redemoinho no solo com uma força e furor que parece um funil cheio de lixo que roda não sei quantas vezes depois se espalha. Fico a imaginar que é uma resposta aos seres humanos que maltratam tanto a terra como os animais.

Hoje teve uma mudança radical no lugar que elegi como meu observatório, a varanda de onde olhava a vida e as movimentações ao meu redor. Foi colocada uma rede de proteção porque nessa moradia que é um apartamento no quinto andar tem agora uma criança de 7 meses. Fiquei triste com a limitação da minha a visão, mas compensada pelo motivo de segurança oferecido a criança que terá livre sua movimentação pelo espaço.

Nessas horas bate aquela saudade da casa rodeada de terreiro onde as crianças corriam e brincavam livremente de pés descalços na terra, por vezes até quente, mas eles nem sentiam. Tempos admiráveis plenos de alegria e de completa conexão com a natureza. Uma infância assim tem sabor diferente, de doce de coco, doce de gergelim ou melado de cana.

Candida Moreira Magalhães

 Sousa, PB – abril de 2021

 

Um dedo de prosa

Lá onde estou tem um curral por trás do prédio

Todas as manhãs ao nascer do sol um senhor sai com um burro e sua carroça

Leva leite para as padarias da cidade

O cachorro companheiro fiel segue atrás

O movimento é sem pressa o tempo é o de chegar

É um movimento que se repete dia após dia, incansavelmente

Antes do sol nascer o curral já está em pleno movimento

O vaqueiro tirando o leite e um rádio ligado anuncia as notícias do sertão

Às três da tarde reiniciam os trabalhos do curral

As vacas são separadas dos bezerros e encaminhadas as coxias onde vão comer a ração

Recomeça a rotina da ordenha

Lá onde moro fica próximo ao açude do Gato Preto

É lá que todas as tardes, 5 horas invariavelmente as Garças fazem uma Assembleia

Todos os dias no mesmo horário elas se reúnem

Cá do meu lugar fico a imaginar qual a pauta da reunião

Não me deixo de cogitar que celebram o dia e vivido e outros assuntos

Assim como, há poucos dias apareceu no pedaço rebanhos de pombos

Não custou muito para se ver garças, pombos vacas e cavalos partilhando o mesmo pedaço de chão na busca do alimento

Diferentemente dos humanos cada vez mais isolados, egoístas demarcando seus espaços,

A natureza segue seu ciclo normal, amanhecer, nascer do sol, manhã, tarde e noite,

Por do sol, fase da lua nova, quarto crescente lua cheia e quarto minguante

Os sons da natureza seguem alimentando a audição dos humanos

Não há tristeza, a beleza e alegria continua contagiante

Esse estado de natureza vida tem sido o conteúdo dos meus dias

Sousa, abril de 2021

Neste ano, ela publicou pela editora Dialética, o livro “Varredoras e Varridas”, trata da vida das mulheres trabalhadoras-varredoras, que limpam as ruas da cidade de João Pessoa, mantendo um ambiente saudável e bonito para os habitantes e visitantes. Vale a pena adquirir o livro para conhecer melhor as histórias destas mulheres e as reflexões e análises que o estudo realizado por Candida Magalhães, têm a nos dizer.

Varredoras e Varridas

Foto destacada – tirada na comunidade de agricultura familiar, no município do Congo, Paraíba – acervo de Murucutu;  

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