A literatura como “um lugar de aconchego e liberdade”

Romarta Ferreira, nossa entrevistada, é alagoana de Santana do Ipanema, radicada em João Pessoa, Paraíba, desde 2009. Jornalista, educadora social e “navegante na literatura”, como ela mesma se identifica, escreveu seu primeiro conto aos nove anos. E depois disso não parou mais.

Com pai e mãe contadores de histórias natos, que de certa forma a inspiraram a criar suas próprias narrativas, a escritora tem uma trajetória de textos publicados, a maioria contos, e é uma influência para a sobrinha, que já se vê como escritora.

Mesmo no trabalho cotidiano, ela se envolveu com o universo dos livros. Atualmente, colabora na gestão das redes sociais da Editora Sanhauá, em João Pessoa, que tem lançado talentos de diversas partes do Brasil. Recentemente, lançou uma coletânea com 40 mulheres de diversas origens e lugares do país. Romarta aprecia a modalidade de coletâneas e antologias, por achar que este tipo de publicação é mais democrático, evidenciando vários talentos de uma única vez.

“Viver sem cultura é impossível”, diz a escritora, que se sente alimentada pelas Artes. Já fez teatro e performances com seus poemas em festivais culturais (João Pessoa), mas foi na literatura e na prosa que ela se encontrou. “A literatura tem me sustentado no campo da Artes”, revela.

Participa há cerca de dez anos do Clube do Conto da Paraíba, grupo de escritoras e escritores que se reúne nas tardes de sábado na capital paraibana. O projeto já lançou três antologias, em duas delas, Romarta publicou alguns de seus contos. “Mirna, a menina de rua” foi seu conto de estreia no clube, sendo também o que mais a marcou, narrando a história de uma criança que vivia em situação de rua, um dos escolhidos para a primeira antologia.

Ela valoriza muito o processo coletivo do clube, que considera uma rede de apoio e incentivo fundamental para ter se aventurado pela literatura. “O ponto principal de eu estar aqui foi basicamente eu ter encontrado um grupo que foi meu motivador. Eu fui acolhida no grupo e hoje acolho outras pessoas.”

Processo de escrita

Romarta revela que sua escrita de hoje é muito diferente de dez anos atrás e credita isso à experiência acumulada na vida e ao processo de escrita, que vem sendo amadurecido. “Percebo um crescimento das minhas narrativas, os fatos narrados são outros. Hoje eu já me vejo escrevendo coisas mais dramáticas, por exemplo.” O mote de seus textos são as questões sociais, porém, os personagens mudaram e têm vivências como ela. 

Romarta afirma que não se obriga a escrever, ao contrário, deixa que a ideia se instale naturalmente, “guardada na mente” e, quando vem a oportunidade, se deixa levar pela escrita. Ao mesmo tempo, quando tem um projeto com prazo em que precisa produzir, se dedica à escrita de forma mais intensa sem problemas.

Acalenta um desejo de escrever um livro solo, mas não se pressiona neste sentido. Gosta de participar de processos coletivos em torno da literatura. “Está nos meus planos publicar um livro de contos, mas ainda estou amadurecendo isso dentro de mim. Eu vivo a literatura de forma tranquila, mais livre, como um lugar de aconchego, aonde a gente vai quando precisa. Não é um lugar obrigatório. Levo de forma livre”, diz com a suavidade de quem se permite escrever dentro do próprio ritmo.

Por que o conto como narrativa? “O conto é minha paixão, por ser uma narrativa mais curta. Acho maravilhoso sintetizar a ideia em duas laudas. Quando o pessoal acha que tem muito mais, acabou. Tem que esperar” (risos). Ela nos revela que o conto que mais a marcou foi justamente o de estreia, citado anteriormente. Ela acha que a personagem renderia mais de uma história.

Inspirações

Como inspirações, a escritora cita Dora Limeira (in memoriam), que publicou seu primeiro conto já idosa, e Valéria Rezende, ressaltando a generosidade de ambas em acolherem as escritoras mais jovens no grupo. Para Romarta, as redes sociais e a internet podem ajudar a mulher escritora jovem a fazer conexões, mas um grupo de escrita é um local de apoio e acolhimento. “Nunca me perdi por causa disso.”

“Há quem busque referências em pessoas consideradas ‘gênios da literatura’, sem problemas quanto a isso, temos muitos bons escritores no Brasil e no exterior. Mas acabo me apegando aos mais próximos. Por exemplo, na literatura infantil, gosto muito de Norma Alves, professora de João Pessoa. Os [contos] de Dora Limeira são bem dramáticos e interessantes. A narrativa dela conversa um pouco com a minha. E não tem como não se identificar com Valéria [Rezende], que traz temáticas regionais. Então, são as pessoas mais próximas que vão me inspirando. Acabo lendo mais essas pessoas que estão mais no meu dia a dia. Me identifico com a trajetória delas. Temos uma produção muito boa na Paraíba, escritoras maravilhosas”, afirma.

Romarta sente admiração por autoras como Ana Lia, Letícia Palmeira, “mulheres que movimentam muito a literatura paraibana”, e outras jovens escritoras. Destaca o Mulherio das Letras, comunidade criada por Valéria Rezende, como um marco para mulheres escritoras que tem contribuído para encontros ricos entre escritoras e mulheres que trabalham com literatura de diversos lugares.

Clube do Conto da Paraíba

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O grupo existe há 18 anos, com encontro aos sábados é aberto a todas e todes que quiserem participar de escritoras/as a curiosos, conforme Romarta, que arremata o convite: “É só chegar! Quem estiver sentindo esta vontade de se aproximar do universo literário, é bem-vindo no Clube do Conto da Paraíba”. Para saber quando e onde será a próxima reunião, basta entrar em contato via Instagram.

Porque hoje é sábado é a mais nova coletânea e foi organizada por ela, e pelos escritores Beto Menezes e Regina Bear. Para Romarta, este livro é “mais especial” porque faz uma homenagem a integrantes falecidos: Suênia Souza, falecida precocemente, vítima de violência urbana, aos 26 anos, Dora Limeira, Geraldo Maciel, Waldir Pedrosa e Ronaldo Monte.

O livro começou a ser pensado antes da pandemia de Covid-19, passou por diversos processos e veio a ser concluído em 2022. A vantagem deste tempo de maturação foi a coletânea poder acolher novas/os integrantes que chegaram com a retomada dos encontros presenciais. 

Foi publicado pela Editora Caos e Letras e lançado em João Pessoa, no dia 11 de fevereiro de 2023, num momento presencial cheio de festa, com o reencontro de vários integrantes, a participação das famílias das pessoas homenageadas e performances artísticas. O livro está à venda no Editora Caos e Letras através deste link.

Para conhecer um pouco mais de sua obra, assista ao vídeo em que ela lê o conto “Olhos negros de noite escura”, clicando aqui.

 “O Mulherio das Letras é um coletivo literário feminista que reúne cerca de sete mil escritoras, editoras, ilustradoras, pesquisadoras e livreiras, entre mulheres ligas à cadeia criativa e produtiva do livro no Brasil e no exterior, a fim de dar visibilidade, questionar e ampliar a participação das mulheres no cenário literário. A escritora Maria Valéria Rezende é uma das idealizadoras do coletivo, que se articulou a partir de uma página no Facebook no ano de 2017. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Mulherio_das_Letras. Acesso em: 28 mar. 2023.